Los Cronocrímenes (2007)

Poucos subgéneros têm sido tão amplamente explorados ao longo dos anos na cultura popular em geral – e no cinema em particular – como o das viagens no tempo. Desde que HG Wells passou para  o papel as desventuras de um cientista amargurado que constrói uma máquina do tempo para salvar a noiva de uma morte inevitável, já pudemos ver na grande tela De Loreans voadores, cyborgs assassinos vindos de um futuro apocalíptico, visitantes da Idade Média, coelhos gigantes de aspecto grotesco e, entre outros, uma banheira de hidromassagem capaz de nos transportar para os anos 80. Num nincho tão saturado onde já se viu de quase tudo, parecia-me improvável que surgisse algo de refrescante dentro do género nos tempos mais próximos.

Eis então que do país de nuestros hermanos surge este Los Cronocrímenes, um pequeno filme que marcou a estreia do jovem Nacho Vigalondo na realização. Ao contrário da amplitude bigger than life de outros títulos, a premissa deste é relativamente simples. Conta-nos a história de Héctor (Karra Elejalde), um pacato homem de meia-idade que acabou de se mudar com a esposa Clara (Candela Fernández) para uma casa junto a um bosque. Confortavelmente instalado na sua cadeira de jardim, Héctor entretém-se a vasculhar as redondezas com uns binóculos quando repara numa bela rapariga (Bárbara Goenaga) especada no meio das árvores, de cabeça baixa. Sem motivo aparente, a jovem retira a t-shirt e fica com tudo ao léu, aumentando a curiosidade e o instinto voyeurista do nosso herói (e provavelmente não só). Quando deixa de a ver, Héctor não resiste e faz-se a caminho do local onde viu a rapariga pela última vez, até dar com ela inanimada e já completamente nua. De repente, é atacado de surpresa por um indivíduo de rosto coberto de ligaduras cor-de-rosa, que o obriga a fugir e a refugiar-se numa estranha quinta a alguns metros de distância. É então acolhido por um jovem cientista (o próprio Vigalondo) que o convence a refugiar-se numa estranha cápsula cheia de um estranho líquido branco (não é nada disso, seus tarados!). Quando dá por si e sai da cápsula, Héctor percebe, chocado, que viajou sensivelmente uma hora para o passado, e que tem de garantir que o seu duplo segue exactamente os passos que ele próprio deu de modo a não acabar perdido no tempo como um fantasma, e no caminho encontrar resposta para algumas perguntas: quem era a jovem, e o que lhe aconteceu? E qual a identidade do assassino?

Los Cronocrímenes demonstra que, mais do que os meios de produção, são as (boas) ideias e a sua correcta concretização que fazem um filme competente. Os dedos de uma mão chegam para contar os elementos do elenco (todos com desempenhos muito aceitáveis), os efeitos especiais são artesanais e quase imperceptíveis, e no entanto é uma delícia observar como todos os factos aparentemente caóticos e erráticos batem certo assim que o ciclo se fecha, o que não invalida que haja espaço para discussão posterior no que aos mistérios do tempo e das viagens inter-temporais diz respeito. Um filme a não perder, e a ver na sua forma original e minimalista antes que a máquina de Hollywood o transvista como de costume no já anunciado remake.

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