Conan the Barbarian (2011)


 

Três pontos prévios: Primeiro, o Conan original de John Milius (1982) é provavelmente o meu filme preferido de todos os tempos; Segundo, abomino remakes e reboots de bons filmes; Terceiro, e intimamente relacionado com os dois anteriores, posso afirmar com concludência que desprezo Marcus Nispel. O realizador alemão já reclamava o (des)crédito de ter dirigido os remakes de dois filmes que são verdadeiros clássicos do género de terror: Friday the 13th (1980) e, sobretudo, o seminal The Texas Chain Saw Massacre (1974). Desta vez, porém, foi longe de mais ao ousar passar por cima daquele que é, na minha imodesta opinião, o melhor filme de sword & sorcery jamais criado, uma obra que mantém um culto considerável por parte dos fãs e presença garantida nas várias listas de filmes mais subvalorizados de sempre criadas no IMDb. Aliás, nada me irrita mais do que o preconceito dos intelectualóides perante o filme apenas por ser protagonizado por Arnold Schwarzenegger. Há até um idiota qualquer que nos comentários na ficha do filme no Cinema PTGate afirma desdenhosamente que embora se trate de um bom filme, nunca seria um grande filme porque a personagem principal é interpretada pelo Arnie. Mas quem raio o gajo preferiria a interpretar o papel? O Laurence Olivier, o Marlon Brando? Pior ainda é ver na imprensa supostos vultos da crítica em Portugal, a propósito da estreia desta trampa do Nispel, tecerem comparações ao original e na maior parte das vezes referirem-se não à obra de Milius e sim à sequela Conan the Destroyer (1984) assinada pelo malogrado Richard Fleischer. Até as fotos que colocam do Arnie a ilustrar os artigos são desse filme e não do original. Esses dois filmes em comum partilham apenas o protagonista, um sidekick (Mako) e a música (grandiosa) de Basil Pouledoris. De resto, são incomparáveis: um é um clássico que resiste de forma admirável à passagem do tempo, o outro é um filme pastiche, um entretenimento oco (embora agradável) que se consubstancia, como alguém já lhe chamou, numa espécie de Feiticeiro de Oz com esteróides.

Mas passemos a este Conan the Barbarian propriamente dito. Para começar, Jason Momoa como Conan é um falhanço completo. Pode-se discutir se é mais ou menos talentoso que o Arnie como actor, mas é uma nódoa neste papel. Um Conan havaiano de cabelo encaracolado, de eyeliner vincado e de saias? WTF!? Até admito que a coisa começa bem, respeitando o aspecto e o feeling da aldeia de Conan mostrada no título de Milius, e Ron Pearlman como pai do protagonista é das poucas coisas que escapam em todo o filme. No entanto, começa a descambar assim que o pirralho de dez anos ou pouco mais limpa o sebo a quatro ou cinco invasores da aldeia sem deixar partir a porcaria do ovo que leva na boca. Isto é apenas um exemplo de uma evidência à primeira vista inconcebível mas que é possível comprovar ao longo de todo o filme: o Conan de Schwarzenegger, o tal ex-culturista austríaco de discurso monocórdico e postura robótica, é mais humano (!) que o de Momoa, que é uma espécie de super-herói/ninja que se livra com uma facilidade assinalável de correntes como se fosse o Houdini e evita golpes dos adversários como se do Steven Seagal se tratasse. O Arnie levou porrada de meia-noite, foi escravo, gladiador e até crucificado numa árvore no meio do deserto, onde foi obrigado a matar um abutre à dentada para sobreviver.

O enredo, por si, é anedótico, e cai num erro que parece ser cada vez mais comum hoje em dia nas fitas de aventura ou acção: o rival do protagonista tem um plano megalómano que implica conquistar o mundo, por regra através de um qualquer artefacto milenar com poderes mágicos que faz sei lá o quê. Um dos aspectos marcantes do Conan original é que apesar da presença de uma ou outra demonstração de feitiçaria, é possível acreditar que aquela era selvagem existiu mesmo, nos primórdios da História. Depois, as personagens cliché: o senhor da guerra maquiavélico (Stephen Lang), a feiticeira sádica (devia ser proibido abafar o sex-appeal de Rose McGowan daquela forma), um sidekick humorístico (o ladrão) e outro, o pirata, que desempenha o papel típico do “Sallah do Indiana Jones”, e escurinho ainda por cima para parecer mais cool e politicamente correcto. Falta, ainda, mencionar Rachel Nichols interpretando uma monja (sic) que, além do papel de donzela em apuros e interesse amoroso do protagonista, também aprendeu sabe-se lá como a distribuir lenha quando necessário.

Poderia ainda fazer referência à banda-sonora esquecível (nem me lembro de um excerto que seja), a montagem das cenas de acção à la Michael Bay ou a uma realização em geral utilitária e académica, própria de um tarefeiro contratado para fazer um remake desnecessário, mas chega de tecer comparações ultrajantes com um filme que, ao contrário deste, perdurará na memória colectiva. Esperemos que Crom (que nem mencionado é, veja-se o descaramento), lá do alto da sua montanha, fulmine todos intervenientes  nesta desgraça, para que não se repita.

Nota: Se se interrogam porque dei mais de oito euros para ver este aborto de filme, respondo-lhes que é como ver os jogos do Sporting esta época: já sabemos que vai acabar mal, mas há sempre aquela curiosidade em saber como…

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2 respostas a Conan the Barbarian (2011)

  1. Nuno diz:

    Devias ir para critico de cinema na tvi24, e não estou a gozar.
    Gosto imenso do Filme original

    • Eu não me vejo como crítico, apenas como um gajo que manda umas alarvidades sobre os filmes que vai vendo.😛
      Quanto aos filmes, se puseres a banda-sonora do original no teu mp3, fechares os olhos e passares as imagens do filme na tua cabeça, será uma experiência cinematográfica mais gratificante do que assistires a este aborto mal sucedido de filme.

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