Gamer (2009)

A haver actualmente um género em relação ao qual não tenha grande expectativa no que aos títulos que chegam às salas diz respeito, será o do blockbuster de acção. Longe vão os tempos em que vibrava com “exércitos de um só homem” como Schwarzenegger, Stallone ou Van Damme, ou então com os anti-heróis como o John McClane de Bruce Willis e o Snake Plissken de Kurt Russell. Não que a minha apetência intrínseca pelo género se tenha alterado (muito). Acontece que hoje em dia este tipo de filmes se tornou numa espécie de tubo de ensaio para o exibicionismo digital e para trabalhos de câmara onde muitas vezes só em slow motion conseguimos perceber o que se passa. Por outro lado, houve um claro desinvestimento na construção de personagens carismáticas e na elaboração de argumentos que não insultem a inteligência do espectador (mesmo tendo em conta que este à partida não estará à espera de um filme cerebral quando se propõe vê-lo). A falta de qualidade é uma característica comum à esmagadora maioria dos action flicks dos últimos tempos, embora de vez em quando lá tenhamos uma ou outra boa surpresa como Machete em 2010, e mesmo este há que ter em conta que triunfa essencialmente por ser uma declarada homenagem a um género moribundo e não um produto fresco e original.

Entre bons e maus exemplos, há ainda espaço para uma terceira categoria; filmes que por uma outra razão tinham a oportunidade de mostrar algo diferente e memorável, mas que acabaram por cair nas habituais armadilhas do entretenimento de acção contemporâneo. É o caso de Gamer (2009) e de uma premissa que, embora não seja cem por cento original – já se vira algo parecido em The Running Man (1987), um dos clássicos do Arnie – é premente e actual, além de abrir a possibilidade de confrontar o espectador com um dilema moral de difícil resolução. O filme de Brian Taylor e Mark Neveldine mostra-nos um futuro próximo onde as transmissões em directo de batalhas até à morte entre condenados à pena capital – controlados remotamente por jogadores (gamers) – são campeãs de audiências. Ou seja, fez-se a junção de dois fenómenos que hoje são incontornáveis: os reality shows e os jogos de vídeo online. Os primeiros, com mais ou menos alterações em relação ao formato original do Big Brother, continuam a absorver serão após serão a já parca atenção e capacidade de concentração de uma população que junta à preguiça mental a inevitável tentação de bisbilhotar a vida das outras pessoas; os segundos são, na opinião dos gurus da indústria, o futuro do entretimento virtual, um futuro onde a imagem do gamer enfiado no quarto a jogar contra o computador não fará já qualquer sentido.

Este quadro inicial tinha o potencial de colocar perante o espectador a dúvida da moralidade dessa forma de entretenimento. Se por um lado parece arcaica e sádica a ideia de assistir em directo a imagens de seres humanos a matarem-se uns aos outros, por outro havia a nuance de estes estarem já condenados a morrer em breve e terem a oportunidade de, caso saíssem vencedores, serem libertados. O jogo – denominado Slayer – permitia resolver o problema da sobrelotação das prisões, além de que uma parte significativa das receitas geradas era canalizada para o sistema prisional.

Infelizmente, a dupla de realizadores e argumentistas tomou a liberdade” de facilitar a resolução do dilema moral ao fazer incorrer a história num maniqueísmo bacoco, onde no avançar da trama nos é dito que Kable (Gerard Butler), o condenado virado ídolo das massas, não só é inocente do crime pelo qual foi acusado como até – pasme-se – foi vítima de uma cilada armada por Ken Castle (Michael C. Hall), o próprio criador do jogo! Este, apesar da imagem pública de visionário e filantropo, mostra ser nada mais que um pulha louco e maquiavélico que aspira à dominação mundial. A mesma história de sempre, que culmina inevitavelmente na redenção do herói e na queda do mau da fita.

Enredo à parte, estilisticamente o filme cai nos habituais vícios já referidos – se fosse um jogo, teria uma jogabilidade menos que sofrível – algo a que não será alheio o facto de ser realizado pelas “mentes brilhantes” por trás dos dois Crank (2006/2009). O elenco, então, é uma desilusão total. Não me refiro particularmente a Butler, um canastrão que não me convence nem por nada (e que inevitavelmente tem uma cena a mostrar o caparro), mas a um elenco de secundários de respeito que inclui nomes como Kyra Sedgwick, John Leguizamo e Michael C. Hall, claramente desaproveitados. Quanto ao último, chega a ser confrangedor comparar a sua subtileza e introspecção em Dexter com um Ken Castle ridículo, em claro overacting.

Provavelmente deveria ter incluído um aviso do tipo “Inclui Spoilers!” ao escrever este texto, mas acreditem em mim quando digo que acabo de vos salvar de uma hora e meia de mediocridade, que será muito melhor aproveitada plantando uma árvore, passeando o cão ou cumprindo os vossos deveres conjugais.

 

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