João Lopes, Black Swan e a mania de ser diferente

Há hábitos que quando os ganhamos é o diabo para nos vermos livres deles. Sejam eles tiques irritantes como roer as unhas ou mastigar chiclete de boca aberta, tendências obssessivo-compulsivas do género fazer tudo três vezes ou contar todos os livros em cada divisão em que se entre, há de tudo. No meu caso um desses hábitos é comprar religiosamente todos os meses a PREMIERE. A revista já viveu melhores dias, é certo, e hoje em dia existem alternativas bem melhores (nacionais ou não) à distância de um clique. No entanto, há largos anos – antes e após a interrupção da publicação durante um ano – que não falho um número. Talvez seja porque sou um saudosista e nada me dê mais prazer do que folhear (fisicamente) um livro ou uma revista em detrimento de aderir à alternativa digital e andar por aí com milhares de livros enfiados num daqueles tijolos agora tão na moda. O que sei é que a febre de comprar e folhear a revista logo que a apanhasse na banca há muito que deixou de existir, o que explica que este mês, por exemplo, apenas tenha comprado a edição de Março no último fim-de-semana. Tardíssimo, sim, mas lá comprei, porque isto de reformatar o subconsciente não é para todos.

Abrindo hoje a revista, dei por mim parado na página d’ A Guerra das Estrelas (rubrica que a revista felizmente recuperou, ao contrário de outras ainda reclamadas pelos leitores) a analisar a cotação atribuída pelos colaboradores a vários filmes estreados nos últimos meses quando subitamente reparo em algo que destoava como o Pacheco Pereira na bancada do PSD: na linha dedicada a Black Swan, quatro dos seis colaboradores concediam cinco estrelas ao filme de Darren Aronofsky, outro ficava-se pelas quatro e… João Lopes “arrasava” com UMA estrela!

Intrigado, e visto que a crítica ao filme incluída é da autoria do grande Francisco Toscano Silva – que “apenas” se lhe refere como “obra-prima suprema”, “obrigatório”, “culto absoluto” e exemplo de “perfeição” – não perdi tempo a googlar “Black Swan + João Lopes” para tentar descobrir por que raio o homem fizera aquilo. Dei com este artigo no DN, apropriadamente intitulado O cinema e os equívocos da seriedade (sic), onde Lopes, por outras palavras, justifica o consenso em torno do filme como um reles produto de fanboyismo, cuja unanimidade fabricada gera um ruído que impede o espectador de o analisar imparcialmente e assim constatar, como ele o fez, que Black Swan é na realidade uma grande merda (estas palavras são minhas).  Justificação de Lopes? Diz que o filme é insultuoso para o ballet porque o reduz a uma performance que depende apenas da actividade sexual da protagonista, e ainda ironiza com a infame cena de masturbação de Nina. Depois, “acusa-o” de incorrer no pecado de cair em demasia no cliché do género do terror. Por fim, e talvez para camuflar um pouco esta inexplicável necessidade de ser contra-corrente e parecer diferente, apresenta ainda pomposamente, qual Futre na apresentação dos reforços do Sporting, um “trio de ases” da crítica cinematográfica (que eu nunca vi mais gordos) que partilha da sua visão. Daqui se tira que Lopes considera que por exemplo Toscano Silva, João Antunes, Jorge Pinto, Nuno Antunes e mesmo Tiago Alves são incapazes de fazer uma análise objectiva de uma obra de cinema e simplesmente se limitam a seguir o rebanho…

Identificar um suposto estereótipo insultuoso de Black Swan em relação ao mundo do ballet seria o mesmo que dizer que Haneke em La Pianiste (2001) faz da classe das intérpretes de música clássica um bando de mulheres frustradas e mesquinhas – e a personagem de Isabelle Huppert também se masturbava e tudo. Será que Lopes é igualmente implacável para a obra do realizador austríaco? Nada disso. “Um dos maiores filmes de 2001”; “Um conto em que a abjecção se liga com o sublime, num movimento cujo poder revelador se confunde com uma viagem à desarmante verdade oculta da dimensão humana.” Resumindo, Erika Kohut era a cicerone perfeita para a tal viagem à desarmante verdade oculta da dimensão humana, Nina Sayers é apenas uma insultuosa representação unidimensional da bailarina clássica. A diferença? Haneke não é americano e é assumidamente contra-sistema. É intelectualmente correcto gostar dele. Já Aronofksy anda a abusar da sorte ao só fazer filmes do caraças. E ainda por cima vai-se meter naquela coisa dos mutantes? Para a fogueira com ele!

Quanto à questão do cliché, não deixa de ser irónico que na mesma página Lopes atribua cinco estrelas a True Grit – que por mais que os Coen argumentem em contrário, não deixa de ser um remake do filme com John Wayne – e três estrelas a The Fighter – como se a história do boxer-que-é-underdog-mas-que-contra-todas-as-expectativas-consegue-triunfar fosse algo nunca visto na história da Sétima Arte.

Também contra-ataco o trio de Lopes – que na verdade pouco mais é do que um trio de 5s, se tanto – com as críticas favoráveis de Richard Corliss, Keneth Turan, Richard Roepper e Roger Ebert himself, entre outrosou seja, tenho no mínimo um poker de Top Critics no Rotten Tomatoes

Posso compreender que João Lopes considere Black Swan uma obra sobrevalorizada. É uma opinião, e também concordo que há filmes medianos que passam por obras-primas em resultado do exagerado hype que os rodeia – sinto o mesmo em relação a Slumdog Millionaire em 2008 e ao próprio The King’s Speech este ano. Mas nunca me passaria pela cabeça colocá-los no mesmo saco de Unstoppable, Tron Legacy ou Gulliver’s Travels (?), títulos que Lopes brindou com a mesma solitária estrelinha em números anteriores da revista. Parece-me haver sim uma clara tentativa de utilizar o filme de Aronofsky como bode expiatório numa pretensa cruzada contra o seguidismo na avaliação da qualidade de um filme ou, pior do que isso, apenas uma ridícula tentativa de destoar na multidão.

 

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