Delicatessen (1991)

 

Se hoje em dia reconheço uma certa versatilidade de géneros no cinema francês – do drama de autores clássicos como Agnès Varda ou mais recentes como Jacques Audiard, até aos filmes de acção de Pierre Morel, passando pelo torture porn extremo de filmes como Haute Tension (2003)  e Frontière(s) (2007) – em meados da década de 90 não era bem assim. Para mim, enquanto pré-adolescente viciado em múltiplos visionamentos de obras de referência da cultura popular como as sagas de Star Wars, Indiana Jones, Back to the Future e qualquer coisa em que o Schwarzenegger entrasse (bem, talvez excepto as comédias como Jingle All the Way (1996)), o cinema feito na língua de Molière pouco mais era do que aquelas coisas chatíssimas da Nouvelle Vague só passíveis de ser apreciadas por snobs (ou simplesmente por pessoas mais velhas do que eu), as comédias idiotas tipo Louis de Funès e o ocasional filme do Steven Seagal dobrado em francês. As coisas começaram a mudar quando numa tarde de 1993 o meu irmão, na altura estudante universitário deslocado, me pediu por telefone que lhe gravasse “um filme muito giro” que daria na televisão nessa noite. Assim o fiz, e a minha curiosidade de saber o que era tomou conta de mim, não só porque o título me parecia “fixe” (embora não fizesse qualquer sentido para mim) mas também porque venerava qualquer coisa que o meu mano velho me indicasse.

Não posso negar a minha desilusão inicial. Qualquer filme que não fosse falado em inglês soava-me mal, além de que aquele em particular, além de ser visivelmente de baixo orçamento, também me parecia esquisito para caramba. Ao fim de cinco minutos fartei-me e coloquei-o de lado. Alguns anos passaram e muita coisa mudou, em particular as minhas exigências cinéfilas. Chegou então o dia em que por qualquer razão decidi voltar a rodar aquela cassete no meu velho VHS e, no final, embora mantivesse a opinião de que era um filme estranhíssimo – e ainda hoje o sinto quando o revejo, mesmo para os padrões actuais – tinha sido dado o passo definitivo para se tornar num dos filmes que me são mais queridos.

Embora actualmente Jean-Pierre Jeunet seja associado acima de tudo ao estrondoso sucesso que foi Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulin (2001) ou mesmo por ter dirigido o quarto tomo da saga Alien (1997), foi com Delicatessen que, juntamente com Marc Caro, teve o seu tirocínio rumo ao elevado estatuto que hoje ostenta – algo que foi reforçado quatro anos mais tarde em La Cité des Enfantes Perdus (novamente ao lado de Caro) e confirmado no filme que imortalizou Audrey Tautou.

Delicatessen tem lugar num futuro pós-apocalíptico, numa isolada localidade francesa e em particular num condomínio gerido por Clapet (Jean-Claude Dreyfus), que além de senhorio também se ocupa do pequeno talho no rés-do-chão. Por alguma razão, os alimentos são um bem tremendamente escasso, o que faz inclusive com que os cereais e as lentilhas sejam utilizados como moeda de troca. Essa mesma escassez, aliada ao despero do instinto de sobrevivência humano, leva a que algumas pessoas optem por medidas mais radicais de angariação de alimentos. É o caso do próprio Clapet, que abastece o stock do seu talho atraíndo através de ofertas de emprego no jornal pobres e incautos indivíduos, que, depois de apaparicados por uns tempos para a engorda, são assassinados e vendidos em lotes aos hóspedes a troco de cereais – ou favores sexuais, no caso de Mademoiselle Plusse (Karin Viard). A próxima vítima parece ser Louison (Dominique Pinon, uma daquelas caras que não se esquece), um ex-palhaço obrigado a deixar as lides artísticas após a morte de Dr. Livingstone, o seu macaco sidekick, assassinado e devorado por uma multidão esfomeada. Afortunadamente, Louison, com o seu coração gentil e sensibilidade artística, conquista o coração de Julie (Marie-Laure Dognac), a filha de Clapet, que ciente do inevitável destino do seu adorado palhaço pede auxílio aos Trogloditas, uma espécie de toupeiras-humanas vegetarianas que habitam nos esgotos e que conspiram para combater o canibalismo na superfície.

Definir Delicatessen não é fácil, pois o filme move-se por entre vários géneros: comédia negra, ficção-científica, drama, terror… mas é um cocktail sinérgico que resulta em cheio, em grande parte devido a uma galeria de bizarras e inesquecíveis personagens, que incluem um homem que vive como (e com) sapos, um carteiro que invoca as leis do Código do Correio para disparar sobre qualquer pessoa que lhe tente roubar a encomenda, um vendedor de artigos tão exóticos como um aparelho que emite um som que atrai ratos ou outro que apita sempre que alguém diz uma parvoíce, ou a minha preferida, Aurore Interligator (Silvie Laguna), uma mulher neurótica que ouve vozes que a incentivam a suicidar-se, mas que por mais que tente (e podem crer que ela tenta tudo!) nunca o consegue. Depois há cenas fabulosas, como aquela em que Aurore tenta múltiplos métodos de suicídio ao mesmo tempo, outra em as personagens executam tarefas (desde pintar o tecto a fazer sexo) a um ritmo sincronizado e cada vez mais acelerado, e a belíssima cena musical do dueto do violino de Julie com a… serra musical(!) de Louison.

Delicatessen é pois um filme imperdível e obrigatório, um verdadeiro clássico de um cinema francês menos elitista e “pesado”, que nunca deixa de nos surpreender pela sua originalidade e estranheza.

 

 

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