Black Swan (2010)

 

Natalie Portman é Nina Sayers, a mais dedicada e perfeccionista bailarina da Companhia de Ballet de Nova Iorque. Aos 28 anos, é como se Nina nunca tivesse chegado à idade adulta: vive com a mãe (Barbara Hershey), uma ex-bailarina frustrada que abandonou a profissão para a criar e que ansia viver os seus sonhos de estrelato através da filha; o seu quarto é próprio de uma menina pré-adolescente, decorado em tons rosa e repleto de bonecas; não tem namorado, não sai, não se diverte nem tem quaisquer outros interesses e deita-se cedo a ordem da mãe, que invariavelmente lhe vem dar um beijo de boa noite à cama. Em suma, Nina vive e respira o ballet. A sua grande oportunidade surge quando Thomas Leroy (Vincent Cassel) decide abdicar da sua prima-donna (Winona Ryder) e atribuir a Nina o papel de Rainha-Cisne na sua próxima versão d’O Lago dos Cisnes. Porém, Nina é torturada pela ideia de que o seu papel protagonista poderá não estar seguro, pois este implica que a escolhida interprete simultaneamente o Cisne Branco e o Cisne Negro, diferentes como a noite do dia: o primeiro puro, frágil e metódico (como ela), o segundo selvagem, sedutor e diabólico, características que não possui. A pressão sobre Nina torna-se ainda mais insustentável quando à companhia se junta Lily (Mila Kunis), que parece ter nascido para interpretar o Cisne Negro. Entre as duas estabelece-se uma estranha relação mista de rivalidade e cumplicidade, enquanto Nina, pressionada por Leroy, tenta libertar o seu lado mais perverso e ao mesmo tempo manter a sanidade.

Para não variar, Darren Aronofsky dá-nos mais uma obra-prima. Que outros cineastas se podem orgulhar de contar como obras-primas todas as longas-metragens da sua carreira? É certo que nem todas foram consensuais (The Fountain (2006)), mas cada uma delas nos perturba de uma forma inconfundível, seja na altura em que a vemos ou plantando uma semente que vai crescendo e crescendo até que se enraíza em nós de forma permanente, e nunca mais a esquecemos. Assim acontece com este Black Swan, uma visão sombria dos meandros do mundo da dança clássica e ao mesmo tempo uma tenebrosa viagem pelo lado negro da mente humana e da insanidade. Curiosamente, este filme é uma espécie de spin-off do rascunho inicial de The Wrestler (2008), em que Ram se envolveria não com uma stripper mas precisamente com uma bailarina clássica, evidenciando assim o contraste (e semelhanças) entre os dois mundos das personagens. Aronofsky acabou por deixar cair a ideia perante a improbabilidade de conciliar numa única obra olhares sobre os dois conceitos, e ainda bem que o fez porque assim tivemos direito não a uma mas a duas obras grandiosas.

Tudo em Black Swan bate certo, do mesmo modo que o Salieri de F. Murray Abraham se referia a àquilo que brotava da mente genial de Mozart: uma nota deslocada, e nada faria sentido. O modo perfeito como Aronofsky filma cenas tão díspares como o trajecto diário de Nina entre casa e o teatro ou as sequências de masturbação e lesbianismo (que darão que falar durante muito tempo), carregadas de erotismo, até à portentosa encenação do bailado em si; a música, belíssima, com Tchaikovsky sempre presente, quer na versão original do bailado, quer nas adaptações sui generis de compositores como Tom Rowlands e Peter Min – e até no toque de telemóvel de Nina; por fim, os actores, principalmente Natalie Portman, naquele que é assumidamente o papel da sua vida – se a estatueta dourada de Melhor Actriz não estiver nas mãos dela daqui a pouco mais de uma semana, deixo oficialmente de dar qualquer credibilidade às escolhas da Academia. Cassel, Hershey e Kunis – que diferença entre Lily e Meg Griffin! – estão perfeitos nos seus papéis, mas é Natalie quem realmente garante neste filme um lugar no panteão das grandes interpretações.

E que adequadas são as últimas palavras de Nina antes de um desfecho possivelmente trágico ao estilo do filme anterior de Aronofsky. Ela foi mesmo perfeita. Eu também o senti…

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