Millions (2004)

 

 

De vez em quando, ao longo do nosso percurso enquanto consumidores de cinema, deparamo-nos com obras que nos causam indisfarçável estranheza, quer pela sua forma ou conteúdo, quer pela indefinição da opinião com que ficamos delas. No meu caso, um bom exemplo para essa situação foi Millions, de Danny Boyle. Um dos filmes realizados pelo cineasta inglês entre o “desastre” que foi a sua adaptação de The Beach (2000) e a consagração perante a crítica e o público com o sobrestimado Slumdog Millionaire (2008), Millions conta-nos a história do pequeno Damian (Alex Etel), uma criança de 7 anos órfã de mãe que vive com o pai (James Nesbitt) e o irmão um pouco mais velho Anthony (Lewis McGibbon). A família acaba de se mudar para Manchester quando, enquanto brincava no seu pequeno castelo construído com os caixotes usados na mudança, Damian vê cair-lhe literalmente do céu uma mala recheada de milhares de libras. Não haveria nada de estranho nesta premissa, já vista em inúmeros filmes onde protagonistas improváveis se vêem inadvertidamente na posse de algo que transcende a normalidade do seu quotidiano, não fosse um par de nuances que tornam o enredo desta obra diferente. Primeiro, a Grã-Bretanha encontra-se a pouquíssimos dias de fazer a transição da libra para o Euro – algo que, como sabemos, ainda não aconteceu na realidade e com esta crise dos países periféricos da zona Euro dificilmente ocorrerá nos tempos mais próximos – o que acrescenta uma dificuldade a ultrapassar pelas personagens já que o dinheiro tornar-se-á eventualmente inutilizável. Depois, e acima de tudo, Damian é uma espécie de anjo na Terra (ironicamente, tem o mesmo nome que o mais famoso anticristo da sétima arte) que, além de possuir um conhecimento sobre a vida e obra dos santos católicos capaz de envergonhar um qualquer alto representante do Vaticano, detém também a habilidade (real ou imaginária) de comunicar com eles. Assim, assistimos frequentemente a sequências oníricas próprias de uma ressaca à la Trainspotting (1996), onde Damian se aconselha com figuras como S. Pedro, S. Nicolau ou os Mártires do Uganda, isto enquanto de se digladia com a família para aplicar o dinheiro encontrado ajudando os pobres, em vez de propósitos mais egoístas preferidos pelo irmão e o próprio pai.

Ao longo da obra, o seu tom vai variando aqui e ali, parecendo umas vezes um filme para crianças que desembocará num inevitável final moralista, noutras uma alucinação própria de uma trip de LSD. A isto junta-se uma banda-sonora tão atmosférica como eclética, com temas de Muse, Vangelis e a culminante Nirvana de El Bosco, que ajuda a que, pese a estranheza, as cenas que vemos perante os nossos olhos nos toquem de alguma maneira. Os actores desempenham os seus papéis na perfeição, sobretudo a revelação Alex Etel e James Nesbitt, um dos mais sólidos actores britânicos da actualidade.

Millions parece ter tudo para ser daquelas obras que se tornam melhores e que das quais mais gostaremos após cada visionamento adicional, haja tempo (e paciência) para isso. Confesso, no entanto, que o voiceover inicial de Damian em que este implica indirectamente a pequenez e insignificância da economia e da própria língua portuguesa (The French have said au revoir to the franc, the Germans have said auf wiedersehen to the mark, and the Portuguese have said… whatever to their thing) mexeu um bocadinho com os meus sentimentos patrióticos e me fez, qual nacionalista encapotado, implicar um bocadinho com o filme a partir daí. “Não querem ver o raio do fedelho, pá!?”…   

Esta entrada foi publicada em Críticas, Filmes dos anos 2000 com as etiquetas , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s