Gulliver’s Travels (2010)

 

Antes de mais, devo fazer um esclarecimento. Poder-se-iam perguntar, após lerem este texto, por que raio me dispus a pagar cerca de oito euros para ver no cinema, em 3D ainda por cima, um filme que sabia à partida ser mau e um puro desperdício de tempo e dinheiro. Oito euros ainda dão para dois maços de Marlboro, certo? Pois bem, tal deveu-se a eu ser simplesmente um gajo porreiro que não gosta de confusões com ninguém – por outras palavras, sou um medricas sem capacidade de fazer valer o meu ponto de vista. Passo a explicar. Combinei ir ao cinema no fim-de-semana passado com um amigo meu que, embora tenhamos gostos cinematográficos francamente díspares – basta dizer que o actor preferido dele é o Jason Statham – uma vez por outra consigo arrastá-lo para ver uma obra de cinema digna desse epíteto, como o The Social Network há uns meses atrás. Desta vez o plano era irmos ver o Hereafter do Eastwood. Convenci-o argumentando que o filme era sobre um trolha que possui poderes místicos, e ele consome qualquer coisa que tenha elementos fantásticos. O problema é que pouco depois avisou-me que desta vez levava a namorada, a qual segundo ele “só gosta de filmes cómicos”. A coisa já me estava a cheirar mal quando, no carro a caminho do cinema, ela me pergunta de forma directa sobre o que era especificamente o filme. Aí fugiu-me a boca para a verdade e expliquei que era “Uma profunda reflexão sobre a morte e o que haverá para além dela, vista pelos olhos de um vidente, de uma jornalista francesa que sobreviveu ao tsunami de 2004 e de uma criança que perdeu o irmão gémeo”. De nada me valeu argumentar que era o último filme de um dos maiores realizadores vivos – eles recusaram-se a ir vê-lo porque era “demasiado deprimente”. Consultando rapidamente o cartaz na net do telemóvel (mais 75 cêntimos para o c…) fui sugerindo outras opções, como o The Next Three Days do Paul Haggis ou mesmo o Love and Other Drugs, mas após explicar em que consistiam os filmes a reacção continuava a ser a mesma. Só quando vociferei com algum asco “Então, só nos resta o Gulliver’s Travels…” lhes notei um brilhozinho nos olhos. “Não digas mais nada, é mesmo esse!”. E pronto. Podem gozar comigo, acusar-me de ser um cagarolas subserviente ou um segura-velas apático, mas a verdade é que nada me incomoda mais do que levar ao cinema alguém que sei de antemão que não desfrutará do filme. Um dos meus defeitos assumidos é mesmo o de ter uma preocupação quase neurótica sobre se os meus acompanhantes estão a gostar do filme ou não. Por isso mesmo a maior parte das vezes prefiro ir sozinho, mas digamos que seria bastante depressivo ir by myself ao cinema num Sábado à noite, não acham?

 Adiante. Quanto ao “filme” em si, pouco há a acrescentar ao senso comum. É um filme com o Jack Black a fazer de… Jack Black pela enésima vez, baseando a premissa numa das mais célebres obras literárias do século XVIII. À medida que os minutos passavam só pensava para mim próprio que o Jonathan Swift devia estar a contorcer-se no caixão ao observar impotente a sua grandiosa sátira socio-política servir de pretexto para um veículo de um meia-leca anafado que ainda teve a sua piada em High Fidelity (2000) ou mesmo Shallow Hal (2001), mas que depois se limitou a desempenhar infinitamente a mesma personagem de headbanger falhado e socialmente inadaptado. Mas se isso já se esperava, o pior foi ver a giríssima Emily Blunt dar impressão de estar a interpretar uma atrasada mental, e saber que para fazer este filme abdicou do papel de Black Window em Iron Man 2 – não que o mérito artístico crescesse por aí além, mas pelo menos seria um deleite para a vista vê-la naquele fatinho preto que a Scarlett Johansson vestiu. Inevitavelmente são as gags de natureza escatológica que mais fazem rir a audiência, mas na verdade dispensava ter de olhar para o rabo de Black enquanto este faz“desaparecer” um liliputiano num momento digno do Fusilli Jerry de Seinfeld. O curioso é que a cena mais asquerosa e politicamente incorrecta do filme – aquela em que Black urina para apagar as chamas no palácio – é baseada numa cena do livro de Swift, devidamente ampliada e emporcalhada para satisfazer as exigências da geração Jackass. Pensando bem, o único momento positivo que me ficou na memória foi a cooperação cyranesca entre Black e Jason Segel ao som de Prince. Isso e poder olhar para a Amanda Peet.

 

Este Gulliver´s Travels não é de todo um filme que recomende, muito menos pagando oito euros para o ver no grande ecrã em 3D, mas poderá satisfazer os apreciadores de “coisas” do género ou fãs do estilo imutável de Jack Black. Agora, se quiserem ver uma boa adaptação da obra de Swift, sugiro que se virem para a adaptação televisiva de 1996 da Hallmark, com Ted Danson e a estranhamente apetitosa Mary Steenburgen.

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