The Wolfman (2010)

 

 

Preconceito. Não há factor de adulteração de um julgamento ou de uma avaliação imparcial mais perigoso do que tomarmos a parte pelo todo com base numa ou outra característica comum. No caso particular de uma crítica a um filme, a ideia que fazemos dele antes de o vermos, com base na informação que nos é disponibilizada – e nesta era de globalização e de overdose informativa é inevitável que voluntariamente ou não, tenhamos acesso a ela – irá forçosamente toldar a nossa percepção do mesmo, como se fosse um espião infiltrado na mente que clandestinamente nos sugere aquilo que devemos pensar do que vemos perante os nossos olhos. Por exemplo, imagine-se que o Michael Bay, essa referência incontornável da pirotecnia hollywoodiana e um dos maiores arautos da destruição cinematográfica de cidades e planetas inteiros a par de Roland Emmerich, certo dia decidia-se a fazer algo diferente e do nada sacava de um filmaço descomunal, um daqueles capazes de fazer a filmografia do Wong Kar Wai parecer obra do Uwe Boll sob pseudónimo e o Kubrick um realizador sobrestimado (idiótico, eu sei, mas os exemplos extremos têm sempre mais impacto). Estaria disposto a apostar o cabelo da Ellen Page que comprei no eBay que não faltariam mentes iluminadas dispostas a arrasar tal utópico objecto de perfeição, fosse porque nem sequer se teriam dado ao trabalho de o ver – afinal, quem iria ao cinema ver um filme do Michael Bay sem esperar destruição maciça, banda sonora épica e/ou pirosa e marines incorruptíveis a salvar o dia, com a esvoaçante bandeira dos EUA como pano de fundo? – ou porque ao mínimo vislumbre de uma chama ou de uma colisão – um charuto a ser aceso com um fósforo ou duas pessoas a chocarem acidentalmente nas ruas de uma qualquer metrópole – ouvir-se-ia logo alguém dizer “pronto, é um filme do Michael Bay.” E mesmo que tal não acontecesse, provavelmente seria visto como uma tentativa fútil e ridícula de Bay de se tornar um cineasta sério e respeitado, e depressa seria recambiado para a “desprestigiante” divisão dos blockbusters.

 Quero com isto dizer que a minha avaliação de The Wolfman (2010), o remake do clássico da Universal de 1941 realizado pelo tarefeiro Joe Johnston (antigo elemento do séquito de George Lucas), estaria desde logo enviesada à partida. Porquê? Porque simplesmente abomino os remakes, reboots e afins que infestam o cinema norte-americano hoje em dia. Então se tiverem como base clássicos ou – pior ainda – forem adaptações “americanadas” de sucessos recentes do cinema além-fronteiras, está o caldo entornado. Para mim, o maior propósito de um qualquer remake é o de sacar mais uns dólares a adolescentes acnosos ou à brigada da pipoca, que nunca viram o original. E embora conceba que, salvo raríssimos casos, ninguém produz um filme esperando ter prejuízo, revolta-me tal acto de ignóbil preguiça e falta de imaginação.

 Neste caso, uma das justificações foi a de que os avanços em termos de efeitos especiais e sobretudo caracterização impunham uma nova visão do clássico. Caramba, se formos pensar assim, não há clássico de terror ou ficção científica que esteja imune ao perigo de ser “refeito”. Qualquer dia até o Jaws (1975), que nos deu a conhecer Bruce, o tubarão mecânico mais famoso de todos os tempos, será “actualizado”.

 Deixando por agora de lado o meu manifesto anti-remakista e concentrando-me no filme em si, The Wolfman, além de desnecessário, deixa um pouco a desejar enquanto objecto individual de cinema. Tem algumas coisas boas, sim. A fotografia gótica e a recriação do período vitoriano são notáveis, assim como impressionantes são também as cenas de gore quando o bicharoco anda à solta. No entanto, o enredo desenvolve-se aos soluços e as motivações de algumas personagens – sobretudo as de Sir John (Anthony Hopkins)não são suficientemente claras e retiram alguma da (possível) verossimilhança aos acontecimentos. A tão badalada e morosa caracterização de Benicio Del Toro é aceitável mas nada que nos deixe os cabelos da nuca eriçados. Quanto ao elenco, que parecia ser à partida um dos grandes atractivos deste filme, desilude em toda a linha. Del Toro é um excelente actor mas neste caso foi um claro erro de casting, não convencendo de todo enquanto inglês de gema exilado nos EUA. Além disso, alguém me pode explicar por que raio a cara do homem se parece com a do Rocky Balboa depois de levar duas monumentais tareias do Apollo Creed? Já Hopkins faz apenas o suficiente para descontar o cheque no fim da rodagem e confirma a minha ideia de que é um dos actores mais sobrevalorizados de sempre. É um belíssimo intérprete, sim, mas não o monstro sagrado que muitos veneram. Sinceramente, para além de Hannibal Lecter ou de Nixon, há alguma interpretação do senhor que seja verdadeiramente inesquecível? Esteve bem em The Elephant Man (1980), mas até aí é John Hurt quem realmente nos marca de forma indelével.

Hugo Weaving ainda se desenrasca numa espécie de papel de Mr. Smith da Inglaterra vitoriana, enquanto no que a Emily Blunt diz respeito, a questão já é outra: podia passar o filme inteiro sem dizer uma única linha (e até podia arrotar e mastigar de boca aberta pelo meio) que mesmo assim não conseguiria dizer mal dela. Para completar o ramalhete, o consagrado Danny Elfman alinhou na preguiça geral e limitou-se a produzir uma versão reciclada da banda-sonora de Dracula (1992).

 No final, temos ainda o corriqueiro incidente que deixa a porta aberta a uma possível sequela. Melhor do que um remake, só um remake que seja o princípio de um franchise, n’é? Tsk tsk.

 

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