Salt (2010)

 

Se há alguma cena memorável no último Indiana Jones (2008), é aquela em que o Indy, perante a revelação da enésima mudança de lado do antigo compadre Mac, lhe pergunta “So what are you, a triple agent?!”. Foi precisamente essa sequência que me passou pela mente após o final de Salt (2010), o último filme do veterano Phillip Noyce e encabeçado pela sempre agradável à vista Angelina Jolie – que ao contrário da ideia corrente de muita gente por aí, continua a ser para mim uma das mais perfeitas criações do Barbas lá de cima, independentemente do seu perfil assimétrico (leia-se, em linguagem labrego-intelectual, “rácio cu/mamas deficitário”). As voltas e reviravoltas no argumento espreitam a cada curva, e só mesmo quando os créditos finais começam a rolar ao som de Newton Howard podemos ter a certeza da resposta à pergunta promocional Who is Salt? (isto se não houver mais cambalhotas na previsível sequela).

O problema é que a incerteza permanente e uma quantidade considerável de twists e contratwists não são suficientes para garantir a qualidade de determinada obra de cinema, caso contrário Wild Things (1998) seria o melhor filme de todos os tempos (e ainda com o bónus de ter Neve Campbell e Denise Richards no marmelanço). E Salt não é, de todo, uma obra memorável.

A primeira vez que ouvi falar deste filme foi acerca da rábula da substituição do agendado protagonista Tom Cruise por Jolie, e da conversão de Edwin para Evelyn Salt – logo aí, adivinhava-se a falta de solidez do argumento em questão. Mais tarde, à medida que mais informação sobre o filme vinha a público, fiquei com a ideia de que estaríamos perante um thriller político, ao estilo do recente Fair Game (2010), uma espécie de demanda kafkiana da protagonista para provar a sua inocência. Como eu estava errado…

O que é Salt?  Pegue-se num tema relativamente actual – a revelação de sleeper agents russos como a célebre Anna “Chapman”; misture-se de seguida com a troca de identidade de duas crianças à The Omen (1976) – e nem falta a dicotómica diabolização da velha URSS;  junte-se ainda uma mão-cheia de sequências de acção claramente inspiradas na saga Bourne; e, por fim, contrate-se um protagonista que garanta receitas de bilheteira só por colocar o seu nome na parte de cima do cartaz – não deu Tom Cruise, azar, passe-se para a maior estrela feminina da actualidade, que por acaso até se desenrasca em filmes de acção.

Plot-holes à parte – seriam inevitáveis num enredo tão rocambolesco – salta ainda à vista a falta de verosimilhança de algumas cenas – assim de repente,  lembro-me da perseguição na auto-estrada e a da fuga de Salt do banco de trás de um carro da polícia, além de que não deixa de fazer confusão uma personagem que começa o filme a servir de saco de pancada a uma cambada de capangas minorcas do Kim Jong Il se revele um ano depois uma perfeita máquina de matar, manietando fisicamente agentes treinados da CIA, do KGB e afins com uma facilidade tal que só com o olhar faria o Rambo fugir com o rabinho entre as pernas para debaixo da saia da mãe.

E esse é, na realidade, o grande pecado de Salt. Dispor de Angelina Jolie e não fazer nada para realçar os encantos femininos da senhora não lembra ao diabo. Só como exemplo oposto, citarei o franchise Tomb Raider, que embora em termos de qualidade seja uma das maiores trampas que Hollywood produziu nos últimos 10/15 anos, nunca deixa de me prender ao ecrã sempre que apanho um dos filmes no cabo – simplesmente porque a Lara Croft de Jolie transpira sex-appeal por todos os poros.   Não fosse a historieta de amor entre Salt e o alemão das aranhas, a personagem principal poderia na mesma ser o Edwin que muito pouco ou nada se alteraria, o que atesta o carácter desenrascado do produto final.

Assim, Salt é um produto oco de consumo rápido e efémero, recomendável sobretudo para apreciadores de Jolie,  para pessoas que se borram todas com twists e, por fim, para casais praticantes de asfixia auto-erótica que poderão encontrar, na cena da morte do vilão, inspiração para experimentar uma posição nova.

 

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