Fim…

Dele já muito se disse, escreveu e cantou. Desde o típico activista empunhando o cartaz com a frase The end is near até à célebre música dos Doors – que ironicamente parece não ter fim de tão longa e aborrecida que é – o desfecho, o resultado final, o cúmulo, enfim o fim, está sempre presente, a pairar sobre a nossa existência com um cunho de inevitabilidade. Porque não é possível evitá-lo. É o que de mais certo temos no mundo, e por mais que tentemos olhar para o lado e pensar a longo – ou mesmo infinito – prazo, isso nada mais é do que um exercício fútil cujo único benefício é o de nos deixar ilusoriamente confortáveis com a nossa existência miserável e condenada à partida. São exemplo disso as intermináveis sagas do cinema que há muito perderam a qualidade original mas que sobrevivem com o único propósito de render mais um mísero dólar; ou o indivíduo que, em qualquer tipo de actividade na esfera artística, política, desportiva ou profissional, se recusa a pendurar as botas, esbanjando pouco a pouco o capital acumulado nos seus tempos áureos.  

Já repararam que cada vez é mais rara a introdução da expressão The end no desfecho de um filme? Esse símbolo incontornável da cinefilia foi banido em prol da necessidade não ofender a susceptibilidade de uma sociedade contemporânea maioritariamente acéfala para quem o terminus é um conceito absurdo e mesmo maldito. O The end vem sendo substituido sobretudo pelo cliffhanger – não o filme com o Stallone mas o artifício que tenciona prender a atenção do consumidor até ao próximo capítulo de um qualquer veículo de entretenimento. Curiosamente, um dos cliffhangers mais célebres da história do cinema – o do final do Back to the Future original, sublinhado com a célebre frase …to be continued – começou por ser um mero exercício de estilo, só concretizado pelo imenso sucesso do filme de Zemeckis na bilheteira. Esse procedimento algo acidental fez escola, e hoje são raros os títulos que saem – sobretudo numa certa linha de produtos para as massas – que não deixam umas pontas soltas passíveis de ser exploradas por futuras sequelas cuja concretização fica dependente do desempenho do produto no box office.

Finda a divagação cinéfila, chega a conclusão. Sendo verdade que o fim é inevitável e que está fora do nosso livre arbítrio a possibilidade de o evitar, o mesmo não se passa com o timing em que ele ocorre. E é a melhor ou pior escolha desse momento que verdadeiramente faz a diferença entre aqueles que perduram no imaginário dos seus pares de forma marcante e aqueles que deixam uma imagem de decadência e marasmo que os votará a breve passo ao esquecimento ou ao balde do lixo da memória colectiva.

Saber acabar é uma arte.

 

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