What Lies Beneath (2000)

 

Robert Zemeckis é daqueles cineastas por quem tenho um carinho especial – isto é, de uma forma puramente cinéfila e não-maricas. São da sua autoria alguns dos filmes gravados nas cassetes que mais massacraram as cabeças do meu VHS nas décadas de 80 e 90. Aliás, uma das coisas de que sinto mais falta da minha infância é da capacidade (e disposição) que tinha de ver e rever um filme dezenas de vezes, antes do pragmatismo da vida adulta me ter convencido de que a vida é curta de mais para perder tempo a ver mais do que uma ou duas vezes a mesma coisa. Entre esses filmes cujas cassetes estavam sempre a jeito de pôr a rolar encontravam-se, claro, a trilogia Back to the Future (1985-1990), que continuo a considerar como um dos expoentes máximos do cinema-espectáculo de qualidade e da magia que só o cinema pode proporcionar; o excitante Romancing the Stone (1984), muito mais do que uma mera cópia barata de Raiders of the Lost Ark (1981) e protagonizado por um trio de actores marcante nos anos 80 (Michael Douglas, Kathleen Turner e Danny De Vito); Who Framed Roger Rabbit (1988), na altura uma maravilha técnica pelo modo como fundia imagem real e animação; e, mais para o fim, Forrest Gump (1994), a inesquecível adaptação de Zemeckis da obra homónima de Winston Groom e um dos raríssimos casos em que o filme ultrapassa largamente em qualidade o livro que o inspira.

Além da aptidão para o ofício, Zemeckis tem-se caracterizado ao longo da sua carreira por duas outras facetas. Primeira, a de mago dos efeitos especiais, que manipula como ninguém e sempre em proveito do enredo. Segunda, uma grande versatilidade que permite distribuir a sua produção cinematográfica por vários géneros, da ficção científica à comédia, passando pela aventura e o drama, até à animação em CGI que tem pautado o seu trabalho na última década.

Não foi por isso uma completa surpresa quando em 2000 o realizador se aventurou pela primeira vez no género do suspense com What Lies Beneath, um thriller sobrenatural protagonizado por uma dupla de respeito: Harrison Ford e Michelle Pfeiffer, interpretando o aparentemente perfeito casal Norman e Claire Spencer.

 Sós pela primeira vez em anos após a partida da filha para a universidade, Norman, um reputado investigador universitário, e Claire, uma antiga intérprete clássica que abandonou a carreira após o casamento, levam uma vida idílica na antiga casa restaurada de Norman junto a um lago no Vermont. Numa tarde, Claire ouve através da vedação o choro desesperado da vizinha Mary Feur (Miranda Otto), que de modo fugidio deixa transparecer um medo mórbido do marido (James Remar, o Harry Morgan de Dexter). Pouco depois, Mary desaparece de vista, ao mesmo tempo que Claire começa a ter visões de uma presença fantasmagórica na casa que ela acredita ser o espírito da falecida vizinha.

 A inspiração de Zemeckis para o filme foi assumidamente a obra de Alfred Hitchcock. É sabido que desde o início a intenção do realizador era a de fazer o filme “que Hitchcock faria se vivesse no nosso tempo e tivesse os meios tecnológicos actuais ao seu dispor”, e sobejam as referências ao velho bochechas, como uma das tags promocionais clamando que What Lies Beneath faria com as banheiras o mesmo que Psycho (1960) fez com os chuveiros, as actrizes loiras (Pfeiffer e a top-model Amber Valletta) e ainda a parte do enredo relacionada com o vizinho do casal, que Claire suspeita ter assassinado a esposa e que por isso espia através da janela do seu quarto – e já agora, também o nome da personagem de Ford. Mas passe a inquestionável valia da realização de Zemeckis, o bem conseguido ambiente de tensão sem recorrer em demasia ao susto fácil e a muito aceitável prestação dos protagonistas, What Lies Beneath não mostra o suficiente para figurar entre as melhores obras do realizador. Um dos aspectos mais criticados foi precisamente o red herring relacionado com o casal vizinho, considerado desnecessário e que não viria mal ao mundo se tivesse ficado no chão da sala de montagem. O argumento apresenta aqui e ali alguma inconsistência, nomeadamente na evolução da personagem de Ford e no papel de uma certa madeixa de cabelo que não se fica muito bem a saber o que realmente faz. A equivalência nas iniciais das duas “vítimas” é também algo forçada, servindo apenas o propósito de construção do tal red herring. Por fim, o filme leva a questão da banheira na comparação com Psycho ao extremo, pois se a sequência no chuveiro deste valeu pela intensidade, em What Lies Beneath tenta-se o mesmo efeito através da insistência – 6 ou 7 das cenas mais memoráveis decorrem na casa de banho, o que é um abuso. Má notícia para aqueles artistas que confessam ter na retrete os seus momentos de maior inspiração.

 Em suma, What Lies Beneath é uma primeira incursão de Zemeckis no género que reflecte a competência do autor – como alguém já disse, Zemeckis é daqueles gajos que não sabem fazer um mau filme – mas que por um ou outro pormenor demonstra que Bob nada melhor noutro tipo de águas. Fica ainda o pormenor de <<<<<SPOILER ALERT>>>>>> estarmos perante uma das raras oportunidades de ver Ford interpretar o mau da fita e, pasme-se, o único até à data em que a sua personagem morre no fim! Se não gostam do Harrison, este é o vosso filme.

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