Devil (2010)

Confesso que não gosto de elevadores. Já frequentei e vivi em vários edifícios com elevadores, e muitíssimo raramente me servi deles. Antes de mais, tenho uma estranha apetência pelo cheiro a mofo de prédios antigos que me leva a escolher impreterivelmente as escadas de modo a presentear o olfacto por mais tempo. Depois, dar à perna pelos degraus acima é mais saudável e ajuda a manter a forma. Por fim, last but not the least, além da possibilidade do raio da coisa encravar e mesmo precipitar-se no vazio do fosso, ainda há a questão da partilha de uma viagem de elevador com alguém que não conhecemos. Haverá situação social mais delicada e embaraçosa? Estamos confinados com terceiros, com uma proximidade espacial que em outras ocasiões do dia-a-dia seria improvável. E o que dizer, se dissermos algo de todo? Simples cumprimento? Aceno de cabeça? E para onde dirigimos o olhar? Seria correcto por exemplo olhar para uma miúda com um decote até ao umbigo sem parecermos uns tarados? E se não olharmos, não seremos vistos como mal-educados? E se notarmos um pivete? Seremos nós? Foi outra pessoa? Devemos censurá-la? Pá, detesto elevadores…

 Agora imagine-se que numa dessas viagens o elevador emperra enquanto partilhamos o cubículo com um black enorme com apetência para rachar crânios com um taco de basebol (Bokeem Woodbine), uma avozinha carteirista (Jenny O’Hara), uma manipuladora viúva-negra (a sensual Bojana Novakovic), um mecânico ex-marine treinado para matar (Logan Marshall-Green) e um vendedor indiano (Geoffrey Arend) que em vez de frôr nos tenta impingir colchões de cama. Mais, que um deles é um assassino em série. Pior – que é o próprio Diabo, apostado em enlouquecer os outros antes de os matar um a um das formas mais atrozes.

Pois é essa a premissa de Devil (2010), o mais recente thriller de terror de John Erick Dowdle (o realizador do sofrível e desnecessário Quarantine (2008)) e inspirado numa história original de M. Night Shyamalan. É aliás inegável que o maior chamariz para o filme é mesmo o nome do (para muitos caído em desgraça) homem que nos deu The Sixth Sense (1999) ou Unbreakable (2000), apesar de não ser ele o realizador. A reputação duvidosa de Dowdle e um elenco maioritariamente desconhecido do grande público levou mesmo a que a promoção do filme assentasse fortemente na tagFrom the mind of M. Night Shyamalan”. Mero artifício ou não, é inegável que se nota a influência do homem, nomeadamente no inevitável twist final e até na qualidade geral que à partida não se esperaria de um realizador como Dowdle.

Devil corresponde em pleno à minha expectativa – talvez até a supere – de que estaríamos perante um série B de terror competente. Uma das suas maiores forças é a de jogar com medos comuns à maioria das pessoas, como a clausura, a escuridão e o que de mau ela pode esconder e a própria existência do Demónio – como nos é dito por uma das personagens, toda a gente acredita nele, nem que seja só um bocadinho. O ambiente crescente de suspense e paranóia é muito bem conseguido, e nas partes em que as luzes do elevador se apagam lida da melhor maneira com a teoria de que o mais aterroriza uma pessoa não é a acção em si e sim a sua antecipação. Nesse aspecto, o gore hoje tão em voga nos filmes de torture porn é praticamente inexistente, não perdendo por isso a habilidade de perturbar a assistência – característica comum aos grandes clássicos do género. O facto de recorrer a um elenco desconhecido também é uma valência, pois permite tornar as personagens mais verosímeis e livres de qualquer imagem pré-concebida – embora não possa deixar de referir que a velhinha me fez lembrar imenso a mãe de Ray Romano na sua sitcom e Marshall-Green apresenta o aspecto que teria um filho de Tom Hardy e Skeet Ulrich caso pudessem conceber juntos. Nota ainda para a homenagem prestada a Rosemary’s Baby (1968) nos créditos iniciais – com o sintomático pormenor de nos dar a vista aérea da cidade de pernas para o ar – e a uma inegável referência ao Saw (2004) original, quer no conceito da clausura de pessoas desconhecidas entre si mas com um elo oculto, quer na resolução (em 2º grau) do mistério da identidade do mau da fita. Não tendo a qualidade necessária para ombrear com estes ou com outros clássicos como The Omen (1976), Devil é uma boa proposta de cinema e vale certamente o preço do bilhete.

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