Before the Devil Knows You’re Dead (2007)

É do senso comum que qualquer tipo de exposição ao público – seja um discurso, um texto ou neste caso um filme – requer uma introdução suficientemente forte para agarrar a audiência e despertar-lhe interesse pelo objecto em questão. Isso pode ser atingido através de elementos que dêem azo a simples curiosidade, indignação, espanto, identificação ou outro tipo eficaz de impacto. O que seria de 2001: A Space Odyssey (1968) sem aquela soberba transição entre o passado pré-histórico e o futuro espacial ao som de Richard Strauss? Ou de Saving Private Ryan (1998) se não abrisse com a magnífica e sangrenta sequência do desembarque dos Aliados nas praias da Normandia? Ou mesmo de A Metamorfose de Kafka se não começasse com o célebre “Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco insecto”?

 Como velha raposa do cinema que é, Sidney Lumet – o octogenário cineasta norte-americano responsável por obras incontornáveis como 12 Angry Men (1957), Serpico (1973) e Dog Day Afternoon (1975) – não podia deixar de obedecer a essa regra de algibeira neste Before the Devil Knows You’re Dead e brinda-nos logo de início com uma intensa cena de sexo. Perante os nossos olhos, um albino obeso e peludo possui poderosamente e com indisfarçável deleite uma escultural morena com um quê de familiar. Torna-se evidente aqui o artifício a que Lumet recorreu para nos prender: a motivação. Por mais badochas e desengonçados que sejamos, mulher alguma estará à partida fora do alcance dos nossos roliços encantos. Após o desfecho daquela sequência inesquecível, a identidade dos até então incógnitos protagonistas é-nos revelada, mostrando não dois mas três dos meus actores preferidos da actualidade: Philip Seymour Hoffman, Marisa Tomei e o peito de Marisa Tomei, figura incontornável do biénio 2007-2008 ao brilhar não só aqui mas também em The Wrestler (2008). Conclusão: depois de George Costanza, Marisa Tomei comprova que gosta mesmo é dos gordinhos.

 A premissa de Before the Devil Knows You’re Dead conta-se em poucas palavras: Andy e Hank Hanson (Seymour Hoffman e Ethan Hawke, respectivamente) são dois irmãos que por razões diferentes se encontram entre a espada e a parede nas suas vidas miseráveis. O primeiro, responsável pela contabilidade de uma empresa, será em breve objecto de uma auditoria externa que inevitavelmente revelará os desfalques que tem feito. Precisa por isso de uma grande quantia de dinheiro para poder fugir do país, de preferência para o Brasil, o único sítio onde conseguiu satisfazer sexualmente a estonteante esposa (Tomei) nos últimos anos. O segundo (Ethan Hawke no enésimo papel de puto cagão) saiu recentemente de um divórcio dispendioso e também lhe dava jeito umas notas extra para pagar a pensão alimentar da ex-mulher e a escola privada da filha. Andy aborda então Hank com o plano perfeito: assaltar a ourivesaria dos pais (Albert Finney e Rosemary Harris), que conhecem como a palma das mãos. Sabendo que o seguro pagará o prejuízo dos velhotes e que o conhecimento que os irmãos têm do sistema de segurança da loja garantirá um assalto limpo e indolor, este parece o plano perfeito onde ninguém se magoa e todos ficam a ganhar. Só que Hank, encarregue de executar o assalto propriamente dito, como mijão que é acobarda-se à última hora e encomenda o assalto a um terceiro meliante (Brían F. O’Byrne), e a partir daí as vidas dos dois irmãos desmoronam-se estrondosamente.

 Com todos os elementos de um thriller clássico, este filme consegue situar-se acima da maioria do género, seja pela mestria da realização de Lumet – aqui a filmar pela primeira vez em formato digital -, pela inovação da não-linearidade de um argumento polvilhado de flashbacks com as diferentes perspectivas das personagens acerca do mesmo acontecimento, pelas interpretações marcantes – sobretudo Hoffman e Finney – e, principalmente, pela intensidade crescente em cada cena que nos guia até um desfecho apoteótico e avassalador. Ao bom estilo de uma tragédia grega, o filme dá-nos um cocktail vibrante de morte, ciúme, traição, remorso e ressentimentos familiares sublatentes levados até às últimas consequências. Tudo somado, Before the Devil Knows You’re Dead é um dos grandes filmes americanos da segunda metade da década, e sério candidato a um hipotético prémio de Melhor Filme do Ano que a Maioria das Pessoas Não Foi Ver. Não se atrevam a ser uma delas.

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