The Social Network (2010)

Em 2003, Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), um brilhante estudante de informática em Harvard com sérios problemas de socialização, criou numa noite de enfiada e sob o efeito do álcool um website onde era possível aos visitantes comparar duas fotos aleatórias de raparigas de várias universidades, retiradas ilegalmente das suas bases de dados. Aquilo que tinha começado apenas como uma reacção a quente ao fim do namoro de Mark com Erica Albright (Rooney Mara) beneficiou de uma propagação viral tal que os servidores da universidade foram abaixo devido ao volume do tráfego. A “brincadeira” valeu-lhe uma suspensão universitária e o ódio feminino mas também despertou a atenção dos gémeos Winklevoss (Armie Hammer), estudantes provenientes de uma família abastada e futuros remadores olímpicos, que impressionados pelo feito de Mark lhe propõem que colabore com eles como programador no projecto de uma rede social virtual exclusiva para a comunidade de Harvard. Apesar de aparentemente aceitar, Mark tem outras ideias para o projecto e começa em segredo a trabalhar numa rede social paralela financiada pelo seu único amigo, Eduardo Saverin (Andrew Garfield), a que dá o nome de “The Facebook” e que mais tarde se tornaria na rede social mais popular do planeta, fazendo do misantrópico Zuckerberg o mais jovem bilionário de sempre.

 The Social Network é mais um inequívoco sinal da mudança de rumo que David Fincher fez nos últimos anos. O realizador afirmou-se e consolidou-se no thriller como um dos mais talentosos cineastas norte-americanos da actualidade, assinando Se7en (1995) e Fight Club (1999), dois dos maiores filmes de culto da década de noventa, e também trabalhos de grande qualidade dentro do género como The Game (1997) e Panic Room (2002). Após uma pausa de cinco anos, regressou e surpreendeu com Zodiac, uma filme que se inspirava  nos infames crimes cometidos em San Francisco na década de setenta, e que apesar de contar com um serial-killer se debruçava quase exclusivamente sobre a investigação jornalística do caso. Mais tarde Fincher foi ainda mais longe e realizou The Curious Case of Benjamin Button (2008), um drama de proporções épicas.

Ora o filme aqui em questão integra-se nessa linha de evolução, consistindo grosso modo na dramatização dos “factos” que levaram à criação do Facebook e das disputas legais consequentes, com base no livro de Ben Bezrich. Antes de mais, há que apontar a pertinência do filme. O Facebook é hoje um fenómeno incontornável na sociedade. Quem não tem um perfil no Facebook é como se não existisse socialmente. A sua popularidade é tal que é visto como uma mina de ouro pelo tecido empresarial, ao ponto de se aprestar a ultrapassar o até há bem pouco tempo indestronável Google como líder da publicidade online. Sobretudo, o Facebook (assim como outras redes sociais como o hi5 por cá) influenciou profundamente o modo como as pessoas se relacionam e socializam hoje em dia, e será talvez por isso que The Social Network já foi designado por alguns como o mais representativo filme da década passada.

Como obra de cinema propriamente dita, e embora não estejamos perante uma obra-prima que nos marque indelevelmente, este título de David Fincher não desilude. É muito interessante o modo como Fincher joga com o paradoxo existencial de Zuckerberg, que por um lado é o criador de uma popularíssima plataforma baseada na amizade dos utilizadores e por outro acaba sem um único amigo verdadeiro para amostra, fruto do modo agressivo e desleal com que gere as suas relações, especialmente aquela com Eduardo Saverin. O “um dia pensarás que as pessoas não gostam de ti por seres um cromo, mas a verdade é que o fazem por seres um cretino” com que a ex-namorada se despede dele logo no início do filme é sintomático da sua característica personalidade. A realização de Fincher é irrepreensível, assim como a actuação da maior parte do elenco. Eisenberg e Garfield estão muito bem como o génio informático de mau feitio e o seu (um pouco) mais responsável sidekick – embora confesse que tenho certa dificuldade em ver Garfield como o novo Homem-Aranha – e Armie Hammer brilha ao interpretar ambos os gémeos Winklevoss e brinda-nos com alguns momentos de boa disposição. Porém, confesso que a interpretação que mais me surpreendeu foi a do improvável Justin Timberlake, que com uma actuação magnética consegue transparecer na perfeição o fascínio que o némesis da indústria discográfica Sean Parker supostamente despertou em Zuckerberg. Nota ainda para a conseguida banda-sonora da autoria de Trent Reznor, o multi-talentoso líder dos NIN.

Assim, The Social Network é mais um passo seguro na consagração de Fincher como um cineasta completo, perfilando-se também como um forte candidato à temporada de prémios que se avizinha. E embora admita continuar a ter preferência pelos seus thrillers, cada filme seu que estreie continuará a ser uma proposta extremamente tentadora  qualquer que seja o género em questão.

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