Inception (2010)

Dom Cobb (Leonardo DiCaprio) é um “extractor” – um ladrão profissional que através da alta tecnologia e de um conhecimento único da mente humana se infiltra nos sonhos dos seus alvos para lhes roubar os mais recônditos segredos. Segundo o próprio, é o melhor naquilo que faz, mas um trauma recente relacionado com a morte da esposa Mal (Marion Cotillard) vem afectado o seu trabalho de um modo demasiado perigoso. Com um mandato de captura nos EUA relacionado com o incidente com Mal que o impede de estar com os seus filhos, Dom aceita um trabalho proposto por Saito (Ken Watanabe), um poderoso magnata japonês, que em troca dos seus serviços lhe promete um regresso seguro ao seu país. Todavia, a missão augura-se mais difícil do que o habitual: no lugar de roubar um segredo, Dom deverá fazer exactamente o oposto: “plantar” uma ideia no subconsciente de Robert Fischer (Cillian Murphy), único herdeiro do moribundo rival de Saito, que o leve após a morte do pai a dissolver o seu universo empresarial.

Dez anos após o surpreendente Memento, o realizador britânico Christopher Nolan volta a manipular a noção do tempo – e desta vez também do espaço – em Inception, uma das grandes obras deste ano cinematográfico que rapidamente caminha para o seu termo. O mais recente filme de Nolan é um excelente exemplo de que é possível conciliar o estatuto de grande produção recheada de efeitos especiais com uma inequívoca validade enquanto obra de cinema. Desde o início, ao assentar a acção no mundo onírico, Nolan livrou-se praticamente de quaisquer barreiras que pudessem obstar à história que se propôs contar, de modo a que os únicos limites existentes fossem os da sua imaginação. No entanto, apesar da originalidade da premissa e do enredo, Nolan não deixa de se inspirar em certos detalhes de Matrix (1999) – tal como a noção de uma realidade virtual que permite ao indivíduo manipular os elementos – e também, o que acaba por ser mais curioso, no mundo dos videojogos. É sabido que as relações entre as duas indústrias raramente têm dado frutos – por norma as adaptações à grande tela de videojogos de sucesso têm sido medíocres, e o contrário também é verdadeiro, embora em menor escala – mas Inception inova precisamente por não adaptar um jogo em si mas sim a estrutura comum à sua concepção. Desde a construção dos cenários labirínticos, passando pela caracterização das personagens até ao conceito de múltiplas camadas (vulgos níveis), tudo se assemelha ao processo de criação de um videojogo.

Não bastando tudo isto, Nolan foi ainda capaz de reunir um elenco verdadeiramente extraordinário, quiçá o mais forte do último par de anos ao lado daquele que Rob Marshall teve ao seu dispor em Nine (2009), mas ao contrário deste que se desmoronou sob o peso das suas ambições, em Inception os actores trabalham sinergicamente com os restantes elementos do filme. É muito comum em elencos deste género que o trabalho de alguns actores se resuma a pouco mais que um cameo de modo a acomodar todas as estrelas, mas aqui todos eles têm papéis bem sólidos e relevantes para a trama – a excepção será Michael Caine, que cada vez mais assume o estatuto de actor-fétiche de Nolan. À cabeça surge Leo DiCaprio, que trabalho após trabalho continua a mostrar porque é um dos actores mais talentosos da sua geração – e este ano não só participou em Inception mas também em Shutter Island de Scorsese, dois dos melhores filmes que vi em 2010. Não podia, claro, deixar de referir também Ellen Page, cuja Ariadne rouba todas as cenas em que entra (e já agora, Joseph Gordon-Levitt entra directamente para a minha lista negra por ter beijado a Ellen numa cena em nada relevante para a trama).

Concluindo, a ser um videojogo Inception seria daqueles (raros) que dá gosto só de olhar e que não nos importaríamos de ficar a ver jogar o nosso irmão mais velho sem que tivéssemos uma incontrolável vontade de fazer birra para que o sacana finalmente nos desse a vez (NA: experiência pessoal e autobiográfica do escriba – yours may differ). 

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