Pérola Chunga (Tão Mau que é Bom) – Barb Wire (1996)

No auge de uma guerra sangrenta, o mundo livre vai cedendo pouco a pouco aos avanços de um implacável exército fascista. São já poucos os territórios que resistem ao jugo do opressor, e mesmo esses são locais esquecidos por Deus onde a lei é ditada por mercenários cuja posição de neutralidade na guerra advém de não se importarem com ninguém a não ser os próprios. Um desses mercenários é  proprietário de um bar numa cidade costeira, onde se veio enfiar após um grande desgosto amoroso. Mas eis que a sua posição de neutralidade é duramente posta à prova aquando do regresso da ex-cara-metade que agora trabalha para a Resistência, e que lhe pede que a ajude a evadir do país um dissidente cuja colaboração será fundamental para o virar da guerra.

Após lerem isto, só podem pensar que me estou a referir ao intemporal Casablanca (1942), certo? Errado! Imagine-se Pamela Anderson no lugar de Bogart e Temuera Morrison no lugar de Bergman e estas são as linhas gerais do enredo de Barb Wire, adaptação de David Hogan da série de comics da Dark Horse com o mesmo nome. Supostamente seria também o bilhete para o estrelato cinematográfico de Pamela Anderson, a voluptuosa nadadora-salvadora de Baywatch que por aquela altura era o maior sex symbol do planeta, ao ponto de em Portugal lutar taco a taco com “sexo” e “Benfica” pelo topo da lista de termos mais pesquisados no Sapo. A fé dos produtores no magnetismo libidinoso de Pam era tanta que antecipando o estrondoso sucesso do filme desde cedo começaram a preparar uma sequela. O que aconteceu a seguir foi direitinho para os anais do cinema como um dos maiores desastres  dos tempos modernos, não só entre a crítica mas também – e o que foi pior e imprevisto – na bilheteira. As repercussões foram tais que David Hogan só voltou a arranjar trabalho como realizador de vídeos musicais e Pamela foi direitinha para a sarjeta de onde só voltou esporadicamente para fazer cameos  em filmes menores ou em descaradas paródias como Borat (2006).

Mas seria o filme assim tão mau? Sim, era. Actuações sofríveis – mesmo de actores reputados como o alemão Udo Kier que chegou a trabalhar com von Trier, Argento ou Van Sant, do competente secundário Xander Berkeley ou mesmo de Temuera Morrison, a poucos de anos de ganhar a imortalidade no grande ecrã ao entrar nos novos Star Wars -, diálogos merdosos sempre à volta dos sufixos mamários da então Mrs. Anderson Lee (the blond with the “guns”) e uma câmara de filmar cuja direcção invariavelmente fugia para os grandes planos das mesmas. A opção de se colar de forma tão descarada ao enredo de Casablanca, por si, não seria assim tão má se o filme não se tentasse levar tão a sério.

Mas então por que raio o considero uma “Pérola Chunga”? Porque os seus defeitos são precisamente as suas maiores qualidades. Vejamos, que melhor maneira de passar o serão para um pré-adolescente em meados da década de noventa do que assistir a hora e meia non stop de Pamela Anderson enfiada em provocantes roupas de cabedal a tal ponto apertadas que pareciam explodir a qualquer momento? Na altura a internet não era o que é agora, pôr a mão na cassete-pirata de Pam e Tommy Lee não estava ao alcance de qualquer um e Barb Wire era a única forma legítima de vermos as maminhas (sic) da senhora sem termos de olhar repetidamente por cima do ombro enquanto desfolhavamos uma Playboy com medo que a mamã nos apanhasse em flagrante. Sim, porque no filme Pam põe tudo ao léu logo nos créditos iniciais, mas com mudanças de plano tão rápidas que não escandalizava as mentes mais puritanas. Era só uma questão de esperar que toda a gente se deitasse em casa e passarmos a cena em slow play no nosso saudoso VHS.

Com o tempo, o filme foi ganhando um certo estatuto de culto sobretudo entre a minha geração, aquela que no pico do Verão nem pensava duas vezes em trocar uma tarde na praia pelo sofá para ver mais um episódio de Baywatch na TVI, sustendo a respiração sempre que CJ Parker se bamboleava à beira-mar de prancha na mão. Pouco importa se o enredo era idiota ou as interpretações dignas de pessoas com paralisia cerebral. Nem ligavamos, pois era um filme com a Pam, e só a Pam importava. É assim que Barb Wire deve ser visto para ser apreciado; um guilty pleasure duro e cru, que por ser involuntariamente tão mau e ridículo acaba por se tornar adorável.

 

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