Europa (1991)

Leopold Kessler (Jean-Marc Barr), um jovem americano de ascendência germânica, viaja para a Alemanha em Outubro de 1945, um país em destroços no rescaldo da II Guerra Mundial. Apesar de a guerra ter oficialmente terminado, bolsas de resistência nazi – os “Lobisomens” – mantêm-se no activo, tentando por todos os meios sabotar as actividades da ocupação Aliada.  Tendo escapado ao recrutamento obrigatório, Kessler procura redimir-se contribuindo de alguma forma para a reconstrução da pátria dos seus pais. À chegada, o seu tio (Ernest-Hugo Jaregard) informa-o que lhe arranjou trabalho como revisor-estagiário na companhia de caminhos-de-ferro Zentropa. Cedo Kessler trava conhecimento com a família Hartmann, proprietária da Zentropa, nomeadamente com Katharina (Barbara Sukowa), a filha do patriarca (Jorgen Reenberg) e suposta ex-membra dos Lobisomens, por quem se apaixona perdidamente. Apesar da firme intenção de se manter neutro na disputa entre os dois lados,  a ingenuidade do jovem Kessler leva-o a ser explorado quer pelos Aliados quer pelos Lobisomens, num enredo verdadeiramente kafkiano,  e quando Leopold se aperceber de que está a ser manietado poderá ser já tarde para se manter fiel aos ideais pelos quais viajou para a Alemanha…

Lars von Trier é o paradigma do cineasta carismático: ou se adora ou se detesta o seu trabalho. Prova disso é o recente Antichrist (2009) e a recepção extremamente heterogénea de que foi alvo. Um dos co-fundadores do movimento artístico minimalista Dogma 95, von Trier encerreu com Europa a trilogia homónima dedicada ao lado mais negro do Velho Continente, depois de Forbrydelsens Element (1984) e Epidemic (1987). Mas se é verdade que o cinema do realizador dinamarquês não é para todos, Europa será provavelmente uma das suas obras mais acessíveis, e um bom ponto de partida para aqueles para quem von Trier é inédito entrarem no seu mundo. Isto porque estamos perante um dos seus trabalhos que mais se aproximam de um formato clássico, nesde caso o do film noir, e apesar da presença discreta da habitual excentricidade e loucura de von Trier, consegue ser mais capaz dentro do género do que por exemplo o mais recente The Good German (2006) de Steven Soderbergh, obra do mesmo género passada em igual época.

Rodado quase integralmente, como é de bom tom no género, a preto-e-branco, aqui e ali von Trier alterna com elementos de cor, com destaque para o vermelho nas cenas em que o sangue jorra a rodos – e ainda são algumas. A beleza gélida da femme fatale Barbara Sukowa é também uma característica incontornável na homenagem que von Trier faz ao cinema clássico. No entanto, todo este formalismo descamba por completo na recta final do filme, abrindo espaço à loucura von Trieriana numa sequência verdadeiramente surreal, pontuada pela narração inesquecível do consagrado Max von Sydow, uma das presenças mais notáveis durante todo filme apesar de nunca dar a cara.

Não sendo o meu filme preferido de von Trier – Breaking the Waves (1996) continua a ser o seu título que mais me assombra e um dos que melhor representa o cinema do autor – Europa é ainda assim um filme notável, quer do ponto de vista técnico quer como referência na cinematografia do realizador dinamarquês, e aconselha-se a todos aqueles que pretendam mergulhar na obra de um dos mais geniais e controversos cineastas das últimas décadas sem correr grandes riscos de rachar a cabeça.

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