Bons Augúrios (1990)

Imagine-se a seguinte cena: os Quatro Cavaleiros do Apocalipse (agora Motoqueiros) receberam cada um o sinal para dar início ao Armagedão. Posto isto, reúnem-se numa estação de serviço apinhada de motards feios, porcos e maus. Fome, Guerra e Poluição (que havia substituído Pestilência há alguns anos, obrigado a uma reforma antecipada quando alguém se lembrou de inventar a penicilina) estão sentados a uma mesa do canto, enquanto Morte, de capacete na cabeça e viseira para baixo, se encontra no meio da sala, rodeado de motards, a jogar numa máquina de Trivial Pursuit. Qualquer que seja o tema ou a dificuldade da pergunta, e com total indiferença em relação às sugestões entusiasmadas dos que o rodeiam, Morte não falha uma. Parece brincadeira de crianças. Até que surge a pergunta acerca do ano da morte de Elvis Presley, e o mais alto e tenebroso dos Quatro fica especado, a olhar para o ecrã. Os motards à sua volta não param de disparar palpites – “1977!”, “Não, não, foi em 76!” – mas o individuo alto não reage. Parece congelado. Até que lhe perguntam “Porque não jogas, pá?!”. A resposta foi a seguinte: “NÃO IMPORTA O QUE DIZ AQUI. A VERDADE É QUE NUNCA LHE PUS O DEDO EM CIMA!”

 Este é apenas um exemplo do humor deliciosamente profano presente em Bons Augúrios, da dupla Neil Gaiman e Terry Pratchett, dois nomes seguros e conceituados da literatura de fantasia. Passe o jogo de palavras, não lembraria ao diabo escrever de forma humorística acerca do Fim do Mundo, mas o resultado é simplesmente fabuloso, ao ponto de ser considerado numa votação da BBC como um dos 100 melhores romances de todos os tempos, ao lado de pesos-pesados como Tolstoi, Cervantes ou Kafka.

 Ao longo de quase 400 páginas, um rol de personagens inesquecíveis (e de nomes não menos memoráveis) desfilam perante a nossa imaginação. Além dos Quatro já mencionados, conhecemos também o anjo Aziráfalo e o demónio Crowley, uma dupla ao nível das melhores, como Astérix e Obélix ou D. Quixote e Sancho Pança. Originalmente incumbidos pelas autoridades lá de cima – no caso de Crowley, lá de baixo – de garantir que nada corre mal na chegada e consequente perfilhação do Anticristo por parte de um diplomata americano, cedo o gosto adquirido ao longo de séculos de vivência entre humanos pelos prazeres terrenos faz com que se arrependam e conspirem para sabotar o Armagedão. Para isso, vão contar com a ajuda de Anátema Device, uma praticante de ocultismo, descendente de Agnes Nutter, a única bruxa genuína em toda a História; Newton Púlsifer (descendente de um antigo caçador de bruxas de seu nome Não-Cometerás-Adultério Púlsifer), um tipo solitário com o dom único de avariar todo o aparelho em que mete as mãos, e recentemente alistado no ECB – Exército dos Caçadores de Bruxas – cujo único membro além dele é o insano Sargento Caçador de Bruxas Shadwell (embora oficialmente existam centenas de membros, para garantir que a instituição continue a ser financiada pelo Céu e pelo Inferno simultaneamente); Madame Tracy, uma cinquentona que passa por médium, e vizinha de Shadwell, por quem sente um fraquinho; e do próprio Anticristo, um rapaz de onze anos chamado Adam (Adão) Young, líder de um trio de rufias da mesma idade conhecido como os “Eles”, e que devido a uma troca acidental no hospital acabou por ser criado pela família errada, tendo até desenvolvido preocupações ecológicas. Por fim, não podia deixar de referir Mary Loquaz, freira satânica da Ordem Tagarelante de Santa Berília, responsável pelo engano na troca dos bebés. Mary, entretanto, deixou a Ordem e fez fortuna a alugar o antigo hospital para conferências e convívios entre trabalhadores de empresas.

Bom Augúrios parodia e referencia também várias obras de culto da sétima arte, desde Star Wars a Terminator, mas acima de todas The Omen, de Richard Donner. E se este é um dos filmes de terror mais assustadores que já vi, o livro de Gaiman e Pratchett é sério candidato ao estatuto do mais hilariante que me passou pelas mãos. Imperdível!

 

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