Anna Karenina (1997)

A adaptação da obra homónima de Lev Tolstoi, um dos grandes romances do Realismo oitocentista, seria sempre uma tarefa hercúlea e de resultado final duvidoso, dada a sua densidade psicológica e a transcendentalidade dos temas abordados. No entanto, os responsáveis pela criação deste filme como que fizeram questão desde o início de se espalhar ao comprido. Para começar, ao leme estava o britânico Bernard Rose, um jovem realizador que começou por fazer nome no mundo dos videoclips (trabalhando, por exemplo, com os UB40), e cuja obra de maior relevo até então era o muito competente filme de terror Candyman. Claro que as origens cinematográficas do realizador, per si, não obstariam a que se saísse bem na tarefa em mãos – basta lembrar Zack Snyder, proveniente do mesmo meio, cujo tirocínio foi o remake do clássico de terror zombie Dawn of the Dead e que mais tarde viria a ser o mentor desse delicioso objecto que é a adaptação de Watchmen – mas tal facto nunca deixaria de ser mais um pontinho nas imensas reticências que qualquer conhecedor da obra literária colocaria de pronto desde o início, dada a disparidade das realidades em questão.


Depois, há a acrescentar a bárbara opção de condensar uma obra que, em algumas edições, ultrapassa as 700 páginas, na duração-padrão de hora e meia, própria de um qualquer “filme pipoca”. Trata-se de uma decisão incompreensível, já que o público-alvo de uma adaptação de Tolstoi nunca poderia ser o da chamada brigada da pipoca, cuja capacidade de concentração e fruição raramente ultrapassa a tal hora e meia padronizada, mas sim aqueles que leram e se fascinaram com um trabalho literário simplesmente monumental e que sentiriam curiosidade em realmente “ver” aquelas personagens inesquecíveis.
Admito que, à primeira vista, Rose retrata a maior parte das cenas chave da obra, ou pelo menos aquelas que fazem avançar decisivamente o enredo. No entanto, fá-lo em autêntico modo fast-forward, sendo o espectador bombardeado com cenas intensíssimas de muito curta duração e deixado completamente à deriva quanto às reais motivações daquilo que presencia. Dou como exemplo todo o processo que leva Ana Arcadievna a pôr termo à sua vida. No filme, Rose resume toda essa cadeia de acontecimentos e conclusões a um mero ciúme exacerbado em relação à princesa Sorokhine, suposta pretendente de Vronski (cuja frieza para com a amante parece surgir do nada!), quando tal facto é apenas a ponta visível do iceberg. É completamente posta de parte, por exemplo, a crença de Ana de que todo o ser humano foi posto neste mundo para semear o ódio e passar por cima dos seus semelhantes tendo em vista a prossecução dos seus objectivos pessoais, que é diametralmente oposta à conclusão a que chega Konstantin Dmitrich Levine. Quanto a este, alter-ego literário de Tolstoi e, na minha modesta opinião, o verdadeiro protagonista do romance, todas as suas dúvidas existenciais e contradições morais, que constituem o sumo da obra, parecem ter sido no filme introduzidas a martelo, como que justificando a presença da personagem que, fora isso, seria perfeitamente dispensável tendo em vista o teor da película.
Por último, e com muita pena minha, aponto a escolha da belíssima Sophie Marceau para protagonista como um crasso erro de casting. É verdade que Marceau é senhora de uma beleza tal que dificilmente ficaria atrás daquela com que Tolstoi idealizou a sua heroína, mas o ar angelical e tímido da actriz francesa não se coaduna com a maturidade, sofisticação e capacidade de sedução inerentes a Ana Arcadievna. A culpa terá sido, também, da inominável montagem final, que reduz as cenas de Marceau a meros choradilhos e birras. Citando novo exemplo, é completamente negligenciada a cena em Ana conhece pela primeira (e última vez) Levine, em que o seu encanto e sedução deixam a cabeça de Kostia à roda. No filme, é referido pelo último a Vronski que “não trocámos qualquer palavra”.

Mas não terá o filme algo de bom, de aproveitável? Sim, tem. Os magníficos cenários de Moscovo e Sampetersburgo, por exemplo, ou a feliz escolha da banda-sonora, em que a música de Tchaikovski e Prokofiev, entre outros, casa de modo perfeito com as cenas retratadas. Não poderia deixar também de referir a felicidade do (improvável!) casting de Alfred Molina como Levine, que se sai realmente muito bem, apesar de eu inicialmente o ver mais depressa como Alexis Alexandrovitch Karenine do que como Kostia! Sean Bean também faz um trabalho muito meritório como Vronski, sendo apenas de lamentar mais uma vez a unidimensionalidade que Bernard Rose confere à personagem.

Como conclusão, Anna Karenina de Rose é uma tentativa completamente frustrada de transportar a grandiosidade do romance homónimo para o grande ecrã, sendo apenas indicado para admiradores da obra de Tolstoi que pretendam rever, em imagem real, cenas inesquecíveis como a proposta de casamento de Levine a Kitty Stcherbatski, feita a giz no tapete de uma mesa de bilhar.

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